Domínio Talibã ameaça direito das mulheres afegãs

Williane Marques de Sousa
Publicado Atualizado

Depois de quase duas décadas de serem expulsos de Cabul, capital do Afeganistão, os combatentes do Talibã retornaram ao local, causando pânico nos moradores. A volta do grupo ocorreu depois da saída dos militares dos Estados Unidos, que em 2001 invadiram o Afeganistão e lá permaneceram, com o objetivo de impedir o Talibã continuasse exercendo seu poder extremista naquele lugar.

Com o retorno do Talibã no território afegão, o medo foi instaurado: num ato de desespero, centenas de pessoas tentaram fugir e muitas delas arriscaram sua própria vida ao ficaram penduradas em um avião militar que estava decolando para sair do país. O vídeo dessa cena foi divulgado nas redes sociais e causou muita comoção. Neste cenário, existe um grupo de pessoas que corre o risco de ser o mais oprimido e ter seus direitos ignorados: as mulheres.

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Desde 1996, ano em que o Talibã capturou e dominou Cabul pela primeira vez, até 2001, as mulheres viveram sobre a dura regência do grupo extremista. Elas não tinham permissão para estudar ou trabalhar e sempre deveriam andar e viajar acompanhadas de um parente homem. Até suas roupas eram controladas: todas deviam estar cobertas da cabeça aos pés. As mulheres que desrespeitavam essas regras às vezes sofriam humilhações e espancamentos públicos pela polícia religiosa do grupo sob a interpretação estrita da lei islâmica.

Porém, após a invasão e o domínio norte-americano no Afeganistão, as coisas melhoraram. De lá pra cá, as mulheres conquistaram muitos direitos. As meninas puderam ir à escola e estudar, as mulheres se tornaram mais autônomas, conquistaram lugares no Parlamento, no Governo e também abriram seu próprio negócio. Agora, com a volta do Talibã no país, as mulheres temem pelas suas vidas, sentem que seus direitos podem ser duramente reprimidos novamente.

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Os primeiros indícios de opressão ao sexo feminino surgiram antes mesmo da tomada do território. Quando o grupo ainda avançava sobre as cidades afegãs, cerca de 250 mil moradores fugiram para Cabul. De acordo com a ONU, 80% dessas pessoas eram mulheres ou crianças. O Talibã já tinha começado a aterrorizar esse grupo de pessoas com ameaças de casamentos forçados, sequestro de mulheres e violência física (1).

No início de julho, enquanto os homens do Talibã tomavam território em todo o Afeganistão, combatentes do grupo entraram nos escritórios do Banco Azizi, na cidade de Kandahar, e ordenaram que nove mulheres que trabalhavam lá deixassem seus cargos. Os homens estavam armados e escoltaram essas mulheres até suas casas. Disseram que elas não deveriam voltar ao trabalho e afirmaram que parentes homens poderiam ocupar seus cargos (2).

Até mesmo no período de negociação as mulheres já estavam sendo atacadas. Mulheres afegãs que trabalham em áreas como jornalismo, saúde e aplicação da lei foram mortas em uma onda de ataques desde que as negociações de paz começaram no ano passado entre o Talibã e o governo afegão apoiado pelos EUA. Embora o acordo tenha sido assinado, a paz não prevaleceu.

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O líder do grupo extremista diz que não pretende retomar a forma de governo exercida nos anos de 1996 a 2001. O grupo alega que agora será diferente, que está comprometido com o processo de paz, com um governo inclusivo e disposto a manter alguns direitos para as mulheres, como a permissão para elas continuarem sua educação do ensino fundamental ao superior (3).

Porém, as mulheres afegãs permanecem com medo. Temem que estes sejam apenas os primeiros sinais da volta à opressão de seus direitos, que foram duramente conquistados ao longo desses últimos 20 anos. Direitos que para nós são tão simples, como escolher nossas roupas e onde trabalhar, para elas são grandes conquistas. Conquistas estas que estão sendo ameaçadas por um grupo extremista, que usa a religião para oprimir as pessoas.

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Não é uma questão apenas de política ou de religião, é uma questão de direito internacional, direitos humanos e de respeito ao princípio da dignidade da pessoa humana. Espera-se que as autoridades internacionais competentes, juntamente com a ONU, tomem providências para que não ocorra novamente o tempo sombrio de antes e que a paz realmente venha prevalecer nesses lugares e as pessoas tenham seus direitos fundamentais respeitados.

Williane Marques de Sousa
Estudante de Direito – Estagiária Unieducar

REFERÊNCIAS:

1. https://www.agazeta.com.br/mundo/dias-sombrios-controle-do-taliba-no-afe...
2. https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/2021/08/15/ascensao-do-taliba...
3. https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/2021/08/16/quem-e-o-taliba-e-...

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