Sala de Aula Invertida - uma Nova Modelagem do Processo Ensino-Aprendizagem

juracy.soares@uni...
Publicado em: seg, 13/07/2020 - 18:17

O que diferencia o atual modelo de ensino e suas principais instituições, como escolas e faculdades, do cenário que existia no século 19? Por incrível que pareça, praticamente nada! Estamos – em matéria de modelo educacional - estagnados há pelo menos 100 anos.

O modelo que a escala global aprimorou logo após o final da 2ª grande guerra lembra muito mais um cenário industrial ou militar. Farda; confinamento; sinais sonoros como campainhas ou sirenes avisando sobre os horários de chegada e saída; disciplina rígida; e, principalmente: absoluta falta de espaço para “respostas diferentes” do que está no “gabarito”.

Afinal, à época, a demanda por “operadores” era tremenda. Não havia espaço para formar pensadores criativos ou críticos. Era necessário dar conta da produção em escala que estava encarregada de produzir – em série – todos os bens que a nova sociedade pós-guerra pedia e, principalmente, estava disposta a pagar.

E é incrível como tantos outros paradigmas que existiam antes da Internet ainda subsistem, sem que façam qualquer sentido por qualquer ângulo que se olhe. Vamos a alguns?

Objetos instrucionais limitados à exposição oral e textos em quadro, que foi “repaginado” e é apresentado agora com um “face-lift” em forma de lousa digital, que acaba presa à mesma função na qual antes se utilizavam de giz. Ou seja, mesmo com a liberdade praticamente infinita que temos hoje a partir do acesso à web, a velha fórmula ainda persiste.

Provas sendo aplicadas como a régua pela qual se mede a apreensão de conteúdo. É o jogo do decoreba onde professores-artistas se sobressaem como “pop stars” da Educação, pelo diferencial questionável que é a sua capacidade de compor músicas ou jingles que facilitam essa tática de “aprendizagem”.

Na aplicação das provas vem o pior dos cenários: os alunos são obrigados a responder às questões sem qualquer possibilidade de pesquisa, como se – no mundo real – os melhores profissionais não desenvolvessem suas profissões diariamente realizando consultas a colegas, na Internet, em livros etc. Ou seja, uma completa desconexão entre o mundo real e o que é “ensinado” em nossas escolas.

As experiências fora da caixa, contudo, já aparecem no horizonte e é claro, muitos céticos torcem o nariz. Mas o fato é que em áreas profissionais com pouca ou nenhuma regulamentação como a de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC), a expertise profissional e um portfólio online valem muitíssimo mais do que qualquer tipo de certificado. 

Essa situação é exposta quando assistimos – já aqui no Brasil – a abertura de escolas e centros de treinamento onde a solução é por demais radical, já que até mesmo a presença do professor foi eliminada.

A regra é a do ensino colaborativo, onde o processo de ensino-aprendizagem tem como ponto de partida um conjunto de desafios lançados no início do curso. A grande sacada: os desafios são – na realidade - encomendas de projetos reais, entregues por empresas que acreditam na capacidade de inovação dessa nova geração que é movida exatamente a desafios.

Ou seja, nessas iniciativas, a “prova” é - na verdade – algo real, palpável e que estará no mercado tão logo sua aplicação seja concluída e validada, migrando do ambiente de programação para a produção, em forma de sites, aplicativos, e demais sistemas os mais diferenciados.

Outro padrão ilógico diz respeito ao conteúdo imposto pela instituição ou curso. A indicação do programa de um determinado curso é rígida, sem espaço para indicação – pelo corpo discente – de disciplinas e até mesmo objetos instrucionais complementares. Isso mesmo no atual ecossistema onde há uma profusão de informação relevante inteiramente à disposição de qualquer interessado.

Sobre esse último aspecto vamos nos aprofundar a partir de agora, já que é o cerne do que nos interessa discutir. Afinal de contas, a lógica da Sala de Aula Invertida é a virada de mesa nessa relação na qual o aluno é alijado do processo de condução do que deseja estudar e pesquisar naquela instituição.

Seguindo essa nova lógica baseada na metodologia ativa de aprendizagem, a proposta de cursos online, palestras e seminários online que leve em conta a dinâmica da Sala Invertida, passamos a adotar parcial ou totalmente os seguintes balizadores:

É perfeitamente factível que o próprio aluno proponha a ideia do curso, palestra ou seminário, indicando o título e até mesmo os itens do conteúdo programático;

Após a análise preliminar da demanda, a instituição de ensino apresenta ao aluno a devolutiva indicando se é ou não factível o desenvolvimento do programa proposto.

Caso a resposta sendo positiva, a instituição designará então professores especificamente com o objetivo de desenvolver o conteúdo a partir dos objetos instrucionais elegíveis, referenciando os itens do conteúdo programático acima listados, dentro dos prazos, cronograma e condições a seguir indicados.

A montagem do referido curso será apoiada no conceito de Sala de Aula Invertida, que tem como um dos princípios, a inversão (como o próprio nome já indica) do modelo tradicional de sala de aula que estamos acostumados a lidar.

A partir da modelagem da Sala de Aula Invertida, a instituição de ensino – tendo em vista o conteúdo programático sugerido pelo corpo discente – desenvolve uma trilha de aprendizagem que pode contar com a disponibilização de objetos instrucionais diversificados, como por exemplo, mas não limitados a: vídeos; blog posts; e-books; podcasts; games; exercícios online; webinars; fóruns e grupos de discussão; e tutoria ativa e/ou passiva.

É importante deixar evidenciado – nesta etapa – que esse conjunto de objetos instrucionais pode ser composto de conteúdo autoral combinado a conteúdo de livre acesso, como links externos para artigos científicos em periódicos abertos; vídeos de acesso livre; manuais oficiais disponibilizados por agências ou órgãos públicos e quaisquer outros elementos que – compatíveis e complementares ao conteúdo programático – possam agregar valor ao referido programa de desenvolvimento profissional.

O aluno ou a turma interessada poderão sugerir adição ao conjunto de objetos instrucionais, componentes selecionados em suas pesquisas iniciais, a fim de agregar valor ao referido programa de qualificação.

O papel do professor/tutor será fundamental no desenvolvimento do referido programa, interagindo ativamente com o aluno, visando apoiar e incentivar no andamento do referido programa.

A instituição de ensino designará tutor especialmente para acompanhar o desenvolvimento de seus estudos do início à conclusão do referido programa. O tutor será também responsável por responder eventuais dúvidas surgidas em relação ao conteúdo programático.

A dinâmica reportada aqui poderá ser desenvolvida no ambiente presencial ou nas variáveis disponíveis da modalidade de educação a distância, especialmente na forma de e-learning.

Essa é a base para a construção de uma nova relação de aprendizagem.

Até a próxima então!
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Juracy Soares
É professor fundador da Unieducar. É fundador e Editor Chefe da Revista Científica Semana Acadêmica.
Graduado em Direito e Contábeis; Especialista em Auditoria, Mestre em Controladoria e Doutor em Direito; Possui Certificação em Docência do Ensino Superior; É pesquisador em EaD/E-Learning; Autor do livro Enrqueça Dormindo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS E VIDEOGRÁFICAS:
BACICH, Lilian; MORAN, José (Organizadores). Metodologias Ativas para uma Educação Inovadora: Uma Abordagem Teórico-Prática. Porto Alegre: Penso, 2018.

BERGMAN, Jonathan; SAMS, Aaron. Sala de Aula Invertida. Uma Metodologia Ativa de Aprendizagem. Tradução de Afonso Celso da Cunha Serra. 1ª Ed. [Reimpr.] – Rio de Janeiro: LTC, 2019.

CARMARGO, Fausto. A Sala de Aula Inovadora: Estratégias Pedagógicas para Fomentar o Aprendizado Ativo. Porto Alegre: Penso, 2018.

ROBINSON, Ken. Do Schools Kill Creativity? Ted Talks, 2016. Disponível em:
https://www.ted.com/talks/sir_ken_robinson_do_schools_kill_creativity?la...

GUN, Murilo. Escolas Matam a Aprendizagem. TEDx Fortaleza. Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=WauIURFTpEc

Murilo Basso. Como no Século 19 nossas Salas de Aula Pararam no Tempo. Gazeta do Povo, 2017. Disponível em:
https://www.gazetadopovo.com.br/educacao/como-no-seculo-19-nossas-salas-...

G1 – Piauí. Professores criam Paródias para Ensinar Biologia a Candidatos do ENEM. 2014.
Disponível em:
http://g1.globo.com/pi/piaui/educacao/ingresso-universitario/2014/notici...

BASÍLIO, Patrícia. Escola de Programação sem Professor é Inaugurada em Aceleradora do Rio de Janeiro. Época Negócios, 2018. Disponível em:
https://epocanegocios.globo.com/Carreira/noticia/2018/12/escola-de-progr...

 

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