Na Pandemia, torture os números. E confessarão o que você quiser

Juracy Braga Soares Junior
Publicado Atualizado

Recebi em uma ‘corrente de WhatsApp’ uma nota de autoria de um ‘jornalista’ com supostas acusações de que os governos estaduais estariam a desviar ou ‘represar’ doses de vacinas. A ‘matéria’ apontava que – das doses enviadas pelo ministério da Saúde – apenas cerca de 50% a 60% estariam sendo aplicadas. Esse ‘jornalista’ estaria alimentando uma teoria da conspiração com a narrativa de que os governadores estariam interessados na potencialização da pandemia, para receber mais recursos etc.

Esse é o tipo de mensagem de WhatsApp - que é facilmente disseminada, como um rastilho de pólvora - atinge em cheio a emoção das pessoas que, sem se socorrerem à razão, vão – simplesmente – repassando a mensagem. Foi então que elaborei uma resposta à ‘corrente’, mais ou menos na seguinte linha:

Existe uma frase que tem algumas variantes. Uma dessas é mais ou menos assim: “Torture os números até que eles confessem o que você quer”.

O ‘jornalista’ em questão faz exatamente isso. Ele ‘torturou os números’ para que a ‘sua verdade’ aparecesse do jeito que ele quis, conforme a sua conveniência. Obviamente o que é conveniente ao dito ‘jornalista’ – ao que parece – é o fomento ao caos social. E – como Jornalista que diz ser – a sua responsabilidade deveria ir ao encontro da verdade, recorrendo a fontes oficiais.

Vamos, portanto, aos números: Aqui no Ceará, por exemplo, todos os dados de vacinação são prontamente disponibilizados para o Ministério da Saúde. O Ceará é um dos estados com o maior índice de transparência na vacinação. Essa informação pode ser rastreada até pelo site da EBC – Agência Brasil, uma empresa Estatal, de propriedade do Governo Federal. E o link para acesso aos dados de vacinação está disponível na referência 1, ao final desse texto.

A ‘tortura’ a que submete os números o referido ‘jornalista’ – que age com má fé ou com desconhecimento – é que aqui no Ceará, por exemplo, de todas as doses que chegam, 50% devem ser reservadas para a 2ª aplicação. Isso é lógico quando temos uma campanha de vacinação baseada em imunológicos que requerem 2 fases. Então, até que todas as doses distribuídas tenham sido aplicadas (em 1ª e 2ª etapa), o ‘descompasso’ entre o número de doses encaminhadas e o aplicado permanece.

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Aí eu fiz uma pergunta retórica: Se o Ceará está ‘sonegando’ vacinas, por que o governo federal não envia para cá uma força tarefa da PF para mandar investigar o caso e prender os responsáveis? O governo federal tem a seu dispor todo o aparato para analisar com lupa a transparência dessa dinâmica.

Ainda mais sendo o Ceará e o Piauí, governados pelo PT, não seria uma boa propaganda para o governo federal escancarar esse tipo de ‘fraude’ por parte desses governos petistas?

A verdade nua e crua é que há muitos responsáveis por essa pandemia. Na verdade, talvez nem possamos apontar *UM ÚNICO* inocente. Desde os governos federal, estaduais, distrital e municipais que, lá em 2012 decidiram que, mais importante que hospitais, seria construirmos estádios de futebol. Sim, esse debate foi intenso no pré-copa. E os argumentos de políticos e ‘estrelas do futebol’, alinhados à maioria da imprensa, sepultavam qualquer tentativa de debate nesse sentido. Mas a atuação do atual governo federal desde março de 2020 foi e tem sido sofrível.

Cada um de nós tem uma parcela de culpa pelo fato de eventualmente nos descuidarmos. Devemos também compartilhar – como humanidade – a culpa pelo fato de – em pleno século 21 estamos degradando o meio ambiente ao ponto de potencializarmos a transmissão de vírus que são endêmicos de animais para seres humanos.

Mas o governo atual tem forte participação também. Desde as ‘previsões’ de que a ‘gripezinha’ mataria 800 pessoas (feita pelo presidente em março de 2020) até 2.500 pessoas (pelo médico / ministro Osmar Terra) até todas as negativas de compra de vacinas quando nos foram fartamente ofertadas, passando pelos xingamentos à ‘vachina’ e outras negações... Se tivéssemos agido proativamente, o Brasil poderia sonhar em sair da pandemia nos próximos 90 dias (vide administração Biden nos EUA).

Os principais líderes de esquerda, direita, centro esquerda e centro direita (todos) acreditaram na vacina e estão ávidos por tirar os seus países da pandemia. Já o Brasil é atualmente o líder mundial em mortes diárias.

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Esse tipo de matéria do ‘jornalista’ referenciada não só desinforma. Parece querer criar uma cortina de fumaça para os desgovernos de que somos vítimas. E sabe o que é mais patético? É sermos envergonhados mundialmente (de novo; novamente) com um programa de vacinação que já foi exemplo para o mundo, sendo o responsável por transformar o país em exemplo do que não se deve fazer em uma pandemia. 

Com o Brasil superando diariamente 2.000 mortes por dia e praticamente todos os estados indo para medidas mais duras de isolamento, foi então que um outro colega fez a seguinte observação ou questionamento: “Só ainda não entendi por que não houve Lockdown nas eleições! Acho que o vírus deu uma pausa naquela época.”

Então – novamente – fiz uma pequena pausa para rascunhar algumas considerações a respeito:

Algumas situações podem dar pistas sobre como chegamos na atual situação:

Antes das eleições o Brasil havia tomado medidas de restrição que resultaram em queda no número de mortes. Mas isso não significava que poderíamos – todos – nos esbaldar em comícios por todo o país, mais festas de réveillon e até no carnaval.

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Já o vírus não tem nada a ver com isso. Seu objetivo é se perpetuar. E nessa ‘missão’, um desdobramento natural é a mutação, que decorre de ‘falhas de replicação’ genética, o que acaba potencializando a sua ‘sobrevivência’. Essas mutações (variantes ou cepas) podem causar efeitos os mais diversos no hospedeiro, como agravamento de sintomas, mais tempo de permanência nos hospitais e até aumento da velocidade de disseminação.

Sobre esse tópico acima, é necessário destacar que o governo – emparedado pela explosão de contágio no Amazonas no final de 2020, em vez de ter se antecipado, construindo hospitais de campanha e realizando a contenção dos doentes, optou por transferir pacientes Brasil afora, o que poetncializou a disseminação de novas variantes pelo país.

E esse é um outro ponto: quanto mais tempo levamos para imunizar, mais tempo somos obrigados a conviver com variantes (mutações genéticas do mesmo vírus que têm por objetivo enganar o sistema imunológico do hospedeiro). Dessa forma vamos prolongando a crise, nos isolando do resto do mundo, tendendo a transformarmo-nos em um repositório de variantes, uma vez que fomos incapazes de deter as mutações em curso com a vacina.

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Esses efeitos que estamos sofrendo agora são desdobramentos, portanto, de uma série de situações, como a potencialização da disseminação nas eleições + réveillon + carnaval + variantes mais potentes + falta de vacina + resistência ao uso de máscaras e por aí vai...

E há muitos outros desdobramentos que ainda sofreremos depois que a pandemia acabar. Imagine o que acontecerá quando os países mais ricos do mundo (que vão sair da crise muito antes que nós) voltarem a comprar commodities no volume que compravam na pré-pandemia? Será que o vendedor de soja, milho etc., vai querer vender barato no Brasil enquanto o preço explode lá fora? Esse será o ‘efeito inflação’, que já se manifesta. Quem já foi ao supermercado, sabe o que estou falando (isso porque as safras futuras já foram negociadas e os preços futuros continuam a subir).

Há ainda um efeito ambiental que o médico e cientista Miguel Nicolelis alerta em vídeo, que pode ser a alta taxa de contaminação do lençol freático pelo coronavírus. Hoje já é possível detectar o vírus nos esgotos, rios e mares. Os países que vão comprar, certamente vão examinar os alimentos – pelo menos – para checar se há contaminação nesses casos.

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Nessa semana tivemos uma notícia alentadora. Por absoluta pressão dos prefeitos e governadores, o Congresso Nacional aprovou e o presidente sancionou o Projeto de Lei (PL) 534/21 (2) que permite que entes subnacionais (Estados, Distrito Federal e Municípios), além de pessoas jurídicas de direito privado adquiram diretamente vacinas com registro na ANVISA. 

Prof. Dr. Juracy Soares
É professor fundador da Unieducar. É fundador e Editor Chefe da Revista Científica Semana Acadêmica. Graduado em Direito e Contábeis; Especialista em Auditoria, Mestre em Controladoria e Doutor em Direito; Possui Certificação em Docência do Ensino Superior; É pesquisador em EaD/E-Learning; Autor do livro Enrqueça Dormindo.

REFERÊNCIAS:

  1. https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2021-02/com-vacinometros-...
  2. https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2021-03/bolsonaro-sancion...

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